O Baralho no mundo

“Quem se importa com vocês?”, disse Alice.
“Não são nada mais que um baralho!”

Foi desprezando o inimigo potencial que a famosa personagem de Lewis Carroll procurou defender-se da severa Rainha, que exigia, literalmente, a sua cabeça.

Muitos, além de Alice, conviveram, temeram, amaram e odiaram esse maço uniforme de cartas que denominamos baralho. Fortunas foram feitas e desfeitas; horas solitárias passaram mais rápido; habilidade e memória foram lapidadas; amigos encontraram motivos para estarem juntos; mágicos encantaram plateias com suas ilusões; cartomantes iludiram clientes com fantasiosas previsões...

Mas de onde vieram os baralhos?

Baralhos são objetos de uso popular há muitos séculos. Simples peças de cartão ou plástico, pouco é conhecido sobre sua origem. São, no entanto, produtos complexos de uma indústria gráfica especializada.

Bem mais recentes que outros tipos de jogos – como os de tabuleiro e dados, existentes há milhares de anos antes do nascimento de Cristo –, os baralhos revolucionaram a atividade lúdica, acrescentando um componente de incerteza às disputas. Além do fator sorte, incorporado aos jogos através dos dados, incluiu-se o desconhecimento de parte das cartas envolvidas, aumentando o sabor e a dificuldade das partidas.

Dominó Mahjong
Chineses usam o termo pai (literalmente significando placa) tanto se referindo a cartas de jogar, como a dominós e a peças de Mah-Jong.

Como a maioria dos objetos comuns de origem antiga, não é possível precisar quem, onde e quando inventou esse tradicional instrumento. Registros disponíveis apresentam referências a baralhos a partir do final do século 13, na China. Mas o baralho moderno, com o qual jogamos atualmente poker, bridge, buraco e truco, surgiu na Europa no final do século 14 (em torno de 1370) trazido pelos mamelucos, que governavam o Egito à época e mantinham intensa relação comercial com a Itália e Espanha. Destes países espalhou-se rapidamente para toda a Europa, daí para colônias e países em outros continentes, sendo hoje encontrado em todo o mundo.

Cartas Mameludas
Com exemplos datados do século 13, as cartas mamelucas deram origem aos modernos baralhos.

Usos e abusos

Ao longo de sua história, o baralho tem sido utilizado com várias finalidades, embora a de servir como apetrecho de jogos seja sua aplicação original e mais comum. Também é constante sua presença nas apresentações artísticas de mágicos profissionais e amadores.

Seu emprego como auxiliar na previsão do futuro é mencionado no século 18. É muito popular a ligação dos baralhos de tarô com a atividade de leitura de sorte. Dados históricos mostram, no entanto, que os tarôs foram criados na Itália, em meados do século 15, possivelmente na cidade de Ferrara (de onde são conhecidas as primeiras referências documentais sobre sua existência). Foram criados para um tipo específico de jogo que, com variações, é até hoje praticado na Itália, Suíça, Áustria, Alemanha e França, embora quase desconhecidos na Inglaterra e nas Américas, onde prevalece a utilização esotérica. O uso do tarô na adivinhação é uma criação do século 18, conforme mostrado por estudos históricos

Foi ainda veículo interessante de divulgação de conhecimento durante os séculos 17 e 18, através de vários baralhos com finalidades educativas. Alguns desses exemplares são até hoje fontes de informações e pesquisas sobre história, geografia e costumes da época. Seu uso extensivo faz com que seja comumente utilizado como veículo publicitário.

A qualidade do material com o qual é normalmente fabricado (cartão), escasso na época em que o baralho surgiu na Europa, fez com que folhas já impressas, mas ainda não cortadas, fossem utilizadas na encadernação de livros, como papel moeda e até como base para o revestimento de edificações. Baralhos antigos são, normalmente, encontrados nestas formas.

Uns jogam, outros fabricam...

Sua fabricação constituiu-se em uma das mais importantes indústrias da idade média. São baralhos as primeiras gravuras impressas em grande quantidade. Mesmo assim, sua utilização (e até mesmo sua posse) foi várias vezes proibida por governos, entendido como vício causador do desvio do trabalhador de suas atividades produtivas. Paradoxalmente, vários governos utilizaram a produção de baralhos como fonte de renda, através de impostos sobre exemplares fabricados. Várias religiões condenam, ainda atualmente, sua utilização.

No Brasil, utilizava-se cartas feitas em Portugal. Nossa indústria só surgiria no século 19. Hoje, a Copag lidera a produção de baralhos de qualidade, fazendo parte do Grupo Cartamundi, um dos maiores conglomerados de edição e fabricação de baralhos no mundo. Seu variado catálogo de produtos tem aceitação mundial entre cassinos e jogadores privados.

Variedades? muitas!

Para muita gente, os baralhos são todos iguais. Na verdade, a propagação de jogos como poker e bridge estabeleceu um padrão mundial de desenho, usado e reconhecido em todo lugar, produzido por quase todos os fabricantes.

Mas se perguntarmos a pessoas de diferentes países como é um rei de copas, teremos respostas diferentes. Veja na ilustração várias versões desta figura, como são representados em vários baralhos correntemente usados em jogos praticados em diversos locais do mundo.

  • Cartas do Mundo

    Copag 139 Experience

  • Cartas do Mundo

    França (Paris pattern)

  • Cartas do Mundo

    Espanha / Argentina (castelhano)

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    Uruguai

  • Cartas do Mundo

    Munique (bávaro)

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    Milão (milanese)

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    Bologna (tarochino)

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    Suíça (jass)

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    Berlim

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    Ziraldo

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    Molina Campos

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    Salvador Dalí

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    Cassandre

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    Jeu de Marseille (mov. Surrealista)

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    José de Guimarães (FISM 2000)

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    EPOC - Leonor Décourt

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    Sonia Delaunay

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    China

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    Coreia

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    Índia

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    Pérsia (atual Irã)

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    País Europeu

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Não são poucos os artistas que usaram baralhos como plataformas para sua criatividade. Temos, assim, os chamados baralhos de fantasia, concebidos por artistas plásticos famosos como Salvador Dalí ou por artistas gráficos importantes como Ruth Kedar, que tem entre suas criações o logotipo do Google. Alguns fogem tanto dos desenhos tradicionais que quase não os reconhecemos como baralhos.

Baralhos, eternamente?

Já temos baralhos virtuais em nossos computadores, onde jogamos paciência e mesmo poker com parceiros em todo o mundo. Mas as tradicionais cartas, de cartão ou plástico, ainda são usadas extensivamente em todo lugar, até no espaço: em 6 de fevereiro de 1971, os astronautas Alan Shepard e Edgar Mitchell jogaram uma partida de gin rummy na Lua, a bordo do módulo lunar da nave Apollo 14.

Que outra criação privilegiada de alguém que desconhecemos, há alguns séculos, estará entre os nossos objetos de uso comum daqui a outros tantos séculos? Alguém se arrisca a especular?

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