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18.09.2020

Usos e abusos

O mais antigo jogo de cartas que se tem registro era praticado na Bavária, com referências em 1460.

Por José Luiz Giorgi Pagliari e Cláudio Décourt


O mais antigo jogo de cartas que se tem registro era praticado na Bavária, com referências em 1460. Chamava-se Karnöffel. Tratava-se de um jogo de vasas, seguindo o tipo de jogo praticado pelos mamelucos, com seu baralho ‘original’. Esses primitivos registros de sua existência referem-se às proibições por governos e autoridades eclesiásticas. Aliás, estas são as fontes mais disponíveis e confiáveis sobre a história do baralho e dos jogos com ele praticados. Suas regras só foram conhecidas recentemente, com a descoberta em um vale isolado da Suíça de um jogo que se adequava às descrições originais.

Certamente não foi o Karnöffel o primeiro jogo praticado pelos europeus após identificarem nas cartas mamelucas um excelente instrumento de lazer e, também, de eventuais ganhos financeiros. Jogos com cartas em variadas estruturas contam-se aos milhares. Alguns, simples entretenimentos familiares. Outros, ‘perigosas’ batalhas de apostas, envolvendo profissionais experientes e ardilosos.

Trappola, Tressete, Hombre, Briscola, Primiera, Poch identificam jogos antigos famosos, alguns ainda em uso; outros apenas antecessores de jogos modernos. Hoje temos o Bridge, Pôquer, Rummy, Copas, Canasta como jogos populares ‘internacionais’. Jogos ‘nacionais’ são o Cribbage (Inglaterra), Belote (França), Skat (Alemanha), Jass (Nordeste da Suíça), apenas para citar alguns. No Brasil temos o Buraco, popular como jogo familiar, o Truco, em suas versões paulista e gaúcha, a Sueca, jogo de apostas rápido, e vários jogos infantis. Imigrantes trazem suas tradições em jogos que praticam em suas comunidades.

Nos cassinos, jogos típicos são bancados: Blackjack, Baccarat, Chemin de Fer (versão modificada do Baccarat, mais comum na Europa), Trente et Quarante. Nestes jogos não há o que chamamos de ‘carteado’. São todos jogados ‘contra’ a banca, ou seja, contra o cassino.

Mas nem só de jogos ‘viveram’ e ‘vivem’ os baralhos. Suas propriedades físicas – tipo de cartão usado, tamanho, quantidade – sugeriram vários outros usos. Durante a revolução francesa, em 1793, devido à escassez de papel moeda de valores menores, foram emitidas ‘notas’ impressas sobre cartas de baralho pelo tesouro de Poitiers. No Canadá e no Suriname também se usou esse artifício para emitir papel moeda.

O material das cartas (cartão de razoável qualidade) também serviu de base para encadernação de livros, base para construção civil, como cartão de visita e usos semelhantes, em uma época em que a disponibilidade de cartão era restrita.

Outro uso comum no início do século 19 foi como identificador de bebês deixados pelas mães na porta de orfanatos, quando não tinham condições, que imaginavam temporárias, de sustentar seus filhos: cortavam parte de uma carta, que mantinham consigo deixando a outra presa à roupa da criança; escreviam aí o nome que desejavam dar a ela e alguma orientação de ordem religiosa ou pessoal. Quando, eventualmente, passavam a ter melhores condições, ‘resgatavam’ o filho, identificado pela parte faltante da carta. Um uso ao mesmo tempo triste e nobre. Aquelas que nunca mais desejavam rever seus filhos não pregavam parte de carta à sua roupa... 

Usos secundários de baralhos.


Outra aplicação além do jogo é o uso intenso feito por mágicos. A chamada ‘cartomagia’ é talvez o mais prolífico ramo das chamadas ‘Artes Mágicas’, a arte de criar a ilusão da impossibilidade. A grande maioria de livros e DVDs sobre mágica editados atualmente, trata de efeitos e técnicas usando o baralho como instrumento. Vários mágicos especializaram-se nesse ‘ramo’, alguns exclusivamente.

Embora com discutível honestidade, cartomantes ‘leem o futuro’ em cartas de baralhos. Prática antiga tem nos tarôs o tipo de cartas mais usado, mas mesmo baralhos comuns servem de instrumento para esse tipo de imaginação ‘futurística’. [veja também link ‘O controverso tarô’]


Os atuais alertas encontrados em embalagens de cigarros, recomendando cautela e indicando consequências de seu uso, tem precedente curioso relacionado com baralhos. Em 1796, registros do Conselho da Cidade de Schaffhausen, no norte da Suíça, indicam que quatro fazendeiros da região foram citados por jogarem Jass por toda uma noite. Foram severamente repreendidos pelo Conselho que estendeu aos habitantes de toda a região a recomendação de evitarem abusar da prática do jogo com cartas. Um fabricante de baralhos da região (Bernhard Schör) imprimiu nos invólucros de seus maços de cartas a frase latina: “Ad usum, non abusum” (‘Para usar, sem abusar’), seguindo a orientação do Conselho.

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