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18.09.2020

Os baralhos usados no Brasil

A documentação dos primeiros anos da Real Fábrica de Lisboa indica a existência das cartas “portuguezas, castelhanas e francezas”, que deviam ser as utilizadas também no Brasil.

Por José Luiz Giorgi Pagliari e Cláudio Décourt


A documentação dos primeiros anos da Real Fábrica de Lisboa indica a existência das cartas “portuguezas, castelhanas e francezas”, que deviam ser as utilizadas também no Brasil.


O maço dos dragões


As cartas ditas “portuguezas” eram de naipes latinos, com o diferencial de trazerem dragões nos ases, uma figura humana no 2 de paus, com reis, cavaleiros e damas serviçais (conhecidas como sotas) como figuras. Um certo Luis Schlichting, do Rio de Janeiro, tinha seu nome em cartas desse tipo, podendo terem sido feitas por ele em torno de 1830, ou por ele importadas.

Moreira & Cia do Recife imprimiam uma versão até a entrada do século 20. 


Exemplos de cartas do tipo espanhol

Entre o pouco material que restou da Real Fábrica do Rio de Janeiro está uma folha
xilogravada de cartas conhecidas como “castelhanas”, provavelmente derivado do padrão Nacional Espanhol. Faz parte do acervo da Biblioteca Nacional. 


Cartas de naipe espanhol impressas pela Real Fábrica.

A vizinhança do Brasil com outros países de língua hispânica e a imigração europeia para o sul do país no final do século 19 criaram na região o hábito de uso do baralho de padrão Catalão Espanhol, que era fabricado nos anos 1940 pela Lafayette do Recife. Desde essa época, a COPAG tem sua versão inspirada nesse padrão. Já nos anos 1960, o “Tipo Espanhol” da SOIMCA era bastante popular. A artista Gertre elaborou um novo desenho em 1993 para a empresa, mas não teve boa aceitação por parte dos jogadores, tradicionais. 

Provavelmente é da Fábrica Caxias do Recife o “Elephante No.50”, com padrão Cadiz, que circulava nos anos 1930.
 

Os baralhos de naipes franceses


Outra peça antiga da Biblioteca Nacional é uma folha da Real Fábrica do Rio de Janeiro com cartas do padrão de Paris xilografadas; apesar de não ter ainda as pintas dos naipes impressas ali, elas seguem o sistema de naipe francês. São as chamadas “cartas francezas”, não necessariamente feitas naquele país. 
 
 Cartas do padrão de Paris da Real Fábrica, ainda sem os naipes impressos.

Do comércio com a Alemanha, notadamente via Hamburgo, vieram cartas utilizadas no norte alemão. Um produtor notável foi C. L. Wüst de Frankfurt, que editou alguns baralhos com vistas do Brasil nos . Seu terceiro padrão de figuras foi escolhido para as primeiras edições de Albino Gonçalves & C., como é o caso do Infatil. A Companhia Paulista de Papéis e Artes Graphicas (COPAG) continuou a utilizar esse desenho com algumas variações, no início com as marcas “13” e “215”.

Outro fabricante de Frankfurt atraiu a atenção dos nossos editores, a B. Dondorf. Seu “Mittelalter” foi adotado pela Azevedo & C., enquanto  as figuras do “No.178”  Lafayette utilizou para uma edição publicitária. 

 

O baralho Internacional


Entre os primeiros baralhos vendidos pela Companhia Paulista de Papéis e Artes Graphicas estava o “113”. O desenho era o do “Trophy Whist #39”, em sua segunda versão com os índices grandes, da norte-americana United States Playing Card Company (USPCC). Foi em 1923, com novo dorso, que é lançado o “139”, marca forte associada ao nome empresa até hoje.

A COPAG desenvolveu outro desenho alternativo, mas acabou destinando-o para as cartas de paciência “Mirim”. Azevedo, Prograf, Lumicart, A. Queiroz, entre outros fizeram também suas versões do internacional.
 

Baralhos de fantasia


Provavelmente impresso pela USPCC, o “Souvenir do Centenário da Independência do Brasil” editado no Rio de Janeiro por Francisco Carneiro, é um dos primeiros maços de cartas que foge dos padrões até então conhecidos. Como um baralho ilustrado, ele traz em cada carta uma fotografia do Rio de Janeiro de 1922, salvo duas das cartas que retratam São Paulo, com o Teatro Municipal e a Estação da Luz. 

No “Baralho Brasileiro” da Prograf, dos anos 1960, as figuras são de diferentes períodos, com trajes regionais. Na década seguinte, Lenita Perroy ilustrou com suas fotos de modelos as figuras numa edição limitada de 100 baralhos. Oriode Rossi editou em 1988 um conjunto de cartas com figuras medievais desenhadas por Percy Vargas.



O curioso “Discóbulo” é um baralho redondo de 1990, editado por Armando Conceição da Serra Negra, onde os quatro elementos são os naipes, enquanto  os planetas e o sol ilustram as cartas, desenhadas por Sequetin. Do mesmo ano são as edições em plástico da Avant Card, criadas por Malu Guerra Simões: “New Classic”, “Fashion” e “Young”. 

Dez anos depois foi a vez de Clécio Penedo ilustrar um baralho do Museu Imperial de Petrópolis com personalidades da História do Brasil. 

A COPAG tem lançado diversos desenhos fora de padrão, como a série de times de futebol nos anos 2000, onde figuras baseadas no baralho internacional vestem camisas das agremiações esportivas; ou o “Chiclete com Banana” de 2012, onde as tradicionais figuras do “139” são transformadas, remetendo ao conjunto musical.

Para comemorar 100 anos da família no ramo, a COPAG lançou em 2008 um estojo comemorativo com cartas desenhadas por Simone Mattar em edição limitada. O best-seller mundial foi o EPOC, criado por Leonor Décourt em 2004, uma releitura artística do baralho internacional. 
 

Outras bases para as cartas


Alguns artistas utilizaram outras plataformas para ilustrar suas cartas. Um belo exemplo são as 53 cartas ilustradas por Martha Pawlowna Sachidrowitz no livro “Dama de Espadas” de Pushkin, publicado pelo círculo bibliófilo "Cattleya Alba". Impresso em 1944, originalmente em seda, foi reeditado no ano seguinte em papel. Também em livro (“Brazil in Tarot Cards / O Brasil em Cartas de Tarô”) podem ser encontradas reproduções dos 22 óleos que Israel Pedrosa fez representando personalidades brasileiras nos trunfos do tarô. 

Nos anos 1970 o artista gráfico Ziraldo criou para uma série de caixas de fósforo da Fiat Lux doze figuras de baralho bem humoradas, cada metade interagindo com a outra. 

Em 1999, a Telefônica de São Paulo fez uma série de 54 cartões telefônicos com as mesmas figuras repetidas nos naipes.
 


Artistas plásticos como Sônia Menna Barreto e Alex Cerveny tem obras relacionadas com o baralho. Alguns alunos de curso universitário criaram peças interessantes como trabalho final de graduação. É o caso de Juliana Kuperman com “Baralhos” para a FAU Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (2004), e Pedro Biz Eschiletti com “Desenho de um baralho de cartas espanhol ilustrando a cultura do Rio Grande do Sul” para o Curso de Design UniRitter (2007).
 

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