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18.09.2020

Origens do baralho

Na origem, como de hábito, um pouco da China.

Por José Luiz Giorgi Pagliari e Cláudio Décourt

Em 1294 foi levado à atenção do imperador Kublai Khan o caso de dois chineses presos por praticarem jogos de azar. Surpreendidos, não tiveram condições para destruir as cartas que também produziam, nem as matrizes usadas para imprimi-las. Não se sabe a pena atribuída por Kublai Khan aos infratores, mas o incidente é o mais antigo registro existente mencionando jogos de cartas. Aquele que realmente criou esse novo tipo de jogo morreu sem o reconhecimento de ter deixado um legado cultural importante para a humanidade. Até porque, à época, cuidava de uma atividade ilegal, e tudo que queria era permanecer desconhecido.


Jogos de cartas na China compõe um conjunto de jogos designados por expressões que contém sempre a palavra pai, que significa literalmente ‘placa’. Vários jogos são praticados usando o princípio das ‘placas’, caracterizadas por terem uma face uniforme, onde o valor de cada carta é desconhecido, e a outra face com desenhos e símbolos usados para formar as combinações em cada jogo. Esse atributo tanto é verificado em baralhos como nos dominós e nas peças de Mah Jong. As cartas de jogar, feitas em papel, designam-se em chinês por zhi pai; dominós, por gu pai (placas de osso) e as peças de Mah Jong, normalmente fabricadas em marfim, por ya pai.

Nossas cartas chinesas, longínquas precursoras dos baralhos atuais, eram (e ainda são) pequenos retângulos alongados, com dimensões médias em torno de 10 x 2,5 cm, portanto bem menores que as cartas de jogar modernas. Tanto na aparência física como na composição e regras dos jogos, pouco se assemelham ao baralho moderno.

Mas como essas cartas evoluíram e chegaram até a Europa, tomando a forma, estrutura e padrão que hoje nos é familiar? Temos aqui muita especulação e pouca certeza. O fato é que outros padrões de cartas de jogar orientais têm muito pouco a ver na aparência e estrutura com os jogos de cartas europeus que originaram o moderno baralho, com o qual disputamos nosso buracopôquer, bridge, truco...

Os baralhos do oriente

Embora se especule que foram criadas há muito tempo, exemplos de cartas de jogar coreanas são encontrados apenas no século 19. Além disso são fisicamente muito diferentes de nosso baralho atual e das próprias cartas chinesas.

Na Pérsia as cartas têm um formato semelhante ao das cartas atuais, mas têm estrutura com cinco naipes contendo cinco cartas repetidas em cada um deles, todas representando figuras; não há cartas numerais. O registro mais antigo de sua existência é do século 16/17. Embora o jogo básico usando essas cartas (As Nas) tenha semelhança com nosso pôquer moderno, a data de seu aparecimento refuta qualquer possibilidade de que possa ter sido um estágio da evolução das cartas chinesas até o modelo atual. Já se conhecia o baralho na Europa na segunda metade do século 14.

A Índia também parece estar fora da ‘rota para a Europa’. Com cartas redondas e compostas por conjuntos de até 120 cartas com 10 naipes, assemelham-se pouco com o que jogamos hoje. Além disso, parecem ter surgido apenas no século 16, quando já se jogava muito baralho na Europa. 


Baralhos chineses, coreanos, persas e indianos (sentido horário desde superior esquerdo): pouca semelhança com baralhos modernos (lado direito da figura).

No Japão o fenômeno evolutivo foi reverso: foram os portugueses, ao chegarem ao Extremo Oriente em meados do século 17, que terminaram por aculturar aquele país com suas cartas europeias.

Até o primeiro quarto do século 20 prevaleciam especulações sem fundamento sobre como o baralho surgiu na Europa. Suposições, sem base documental, falavam em ciganos, Marco Polo, cruzados e outros veículos levando o novo tipo de jogo àquela região, que também ainda se estruturava politicamente. Especulava-se, por outro lado, sobre uma origem naquele próprio continente. Na maioria dessas hipóteses, no entanto, o oriente parecia ser a origem mais plausível.

Como para vários outros objetos, instrumentos e atributos científicos, artísticos e culturais europeus, temos que reconhecer aqui outro legado dos árabes à civilização europeia.

As cartas mamelucas

Faz parte do acervo do museu Topkapi Sarayi, em Istambul, um conjunto de cartas de jogo. São cartas de grandes dimensões (25,5 x 9,5 cm), pintadas à mão, com detalhes em ouro. Há indicações que teria sido um presente do governante mameluco do Egito ao sultão Otomano, em meados do século 15.

Temendo invasões dos mongóis pelo oriente, e das cruzadas cristãs vindas da Europa, os árabes da dinastia Ayyubid, que governavam o Egito no século 13, trataram de formar um exército profissional bem treinado, adquirindo a casta dos mamelucos no mercado de escravos. Eram compostos principalmente por turcos vencidos em guerras. Embora comercializados como escravos, sua condição de vida após sua aquisição nada tinha de sub-humana:recebiam pagamento regular, mantinham hierarquia formal de comando, escolhendo seus comandantes (sultões) entre seus próprios pares e vivendo em condições extremamente confortáveis. Sua força foi tal que terminaram por tomar o poder no Egito em 1258, terminando a gestão Ayyubid. Governaram a região até 1517, quando foram dominados pelos Otomanos. Tiveram uma significativa influência na cultura daquele país, durante os anos em que o governaram. Muito da arte e arquitetura da atual cidade do Cairo foi formada na época mameluca.


Com exemplos datados do século 13, as cartas mamelucas deram origem aos modernos baralgos.

Ao estudar estas cartas em 1938, L. A. Meyer (importante pesquisador da influência árabe na Europa) concluiu que o modelo poderia ter sido o precursor dos baralhos europeus. Embora sem as tradicionais cartas figurativas (reis, damas, valetes e cavaleiros, comuns nos mais antigos baralhos da região), a semelhança estrutural e dos símbolos que identificam os naipes é notável. A inexistência das figuras relaciona-se com a tradição árabe de evitar a representação figurativa de pessoas, explicada por alguns como proibição formal de base religiosa e por outros como simplesmente ser considerada de mau gosto estético. Mas identificava em seu baralho cartas que representavam reis, primeiros vice-reis e segundos vice-reis; exatamente três ‘figuras reais’, como na maioria dos baralhos europeus. Compunha-se de 52 cartas, como ainda encontrado em vários tipos de baralhos, especialmente na versão mais popular dos baralhos modernos.

Saiba mais em: ‘O baralho internacional’.

A descoberta de outras cartas com menores dimensões e apresentação menos luxuosa que as cartas encontradas no museu Topkapi Sarayi, provavelmente produzidas ainda no século 12, mostrou evidências consistentes de que nossos baralhos atuais foram, quase certamente, originários deste jogo mameluco. Estudos e análises concluídos na década de 1970, principalmente por membros da International Playing Card Society (IPCS), como o Prof. Sir Michael Dummett, da Universidade de Oxford, consolidaram a versão da origem mameluca do baralho europeu.

Esta conclusão reforça descrições como a de Giovanni di Covelluzzo, nas Crônicas de Viterbo: “No ano de 1379 chegou a Viterbo um jogo de cartas proveniente do país dos sarracenos, chamado naib”. Citações e baralhos de origem árabe com características semelhantes também foram encontrados na península ibérica. Não por coincidência, Itália e Espanha foram os principais pontos de contato entre mamelucos e europeus, durante o século 14. Não é por outra razão que ‘baralhos’ são designados até hoje na Espanha como naipes.

Outra referência importante foi deixada por um frei dominicano da cidade de Basiléia, na Suíça: em seu Tratado sobre a moral e disciplina da vida humana, escrito em 1377, Johannes of Rheinfelden descreve em detalhes um jogo de cartas com estrutura similar aos jogos atribuídos aos mamelucos.

Além dessas duas importantes referências, várias outras começam a aparecer na Europa na segunda metade do século 14. A maioria delas eram sermões contra a prática de jogos com cartas ou proibições dos governos de várias regiões à prática de jogos usando baralhos: Florença, Paris, Siena, em 1377; Berna (1379); Barcelona, Nuremberg, Perpignan, em 1380; Zurique e Holanda, em 1390, apenas para citar as mais comentadas em artigos sobre o tema.

Todas essas referências evidenciam o rápido desenvolvimento dos jogos de cartas na Europa a partir dos anos 1370. Itália e Espanha são os inconfundíveis pontos de contato com as cartas mamelucas. A semelhança de baralhos primitivos destas regiões com baralhos mamelucos é mais do que evidente.



Além da semelhança física das cartas, pesquisas sobre o tipo de jogo praticado pelos mamelucos indicam jogos do tipo ‘de vazas’, ainda populares atualmente em jogos da família do whist, cujo descendente mais famoso, e ainda praticado, é o bridge. Vários dos antigos jogos de cartas europeus, entre eles o jogo de tarô, também são estruturados em ‘vazas’.

Mas, afinal, alguém conhecido criou o baralho?


Como para a maioria das invenções antigas, não se pode atribuir a uma pessoa específica a criação do baralho. Lendas falam de um imperador chinês que o teria criado para entreter suas várias mulheres. E que teria vindo para a Europa trazido por Marco Polo ou pelos ciganos. Outros afirmam que foi criado na França para o rei Carlos VI, que precisava se distrair para aplacar sua loucura. Isto teria ocorrido em 1392, quando já se jogava baralho na Europa há, pelo menos, 30 anos. Marco Polo nunca citou baralhos em suas bem relatadas viagens. Os ciganos chegaram à Europa em 1398 e encontraram esse jogo em prática corrente. São lendas e fantasias, apenas.

O que há de concreto é a referência sobre sua existência na China em 1294. Seu ‘transporte’ para a Europa tem um trajeto desconhecido, mas talvez tenha chegado às mãos dos ‘sarracenos’ mamelucos em meados do século 14, firmando o padrão com o qual ainda hoje nos divertimos, ganhamos e perdemos dinheiro. Nada mais que isso. Se assim foi, o baralho mameluco pode ter sido uma evolução do baralho chinês. Ou pode ter sido uma criação posterior dos árabes, um exemplo do ‘paralelismo’ cultural e criativo que observamos em muitos objetos: criações independentes, sem ligações formais, apenas ‘coincidências criativas’, em tempos e lugares diferentes. Até agora nada nos dá conta do que realmente ocorreu.

Sem registros, o criador desapareceu, embora deixando um legado cultural importantíssimo.

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