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18.09.2020

O jogo se espalha

Os jogos com cartas se espalharam pela Europa como fogo no palheiro. Rapidamente várias regiões adotaram a prática.

 
Por José Luiz Giorgi Pagliari e Cládio Décourt

Os jogos com cartas se espalharam pela Europa como fogo no palheiro. Rapidamente várias regiões adotaram a prática. Do norte da Itália para regiões hoje nos territórios da Alemanha, França, oeste da Áustria e Suíça. Da Espanha para a costa atlântica da França, Sardenha, sul da Itália e Portugal. Em várias outras ondas de expansão, se espalhou por toda a Europa. Daí passou às colônias europeias no Novo Mundo. Na Ásia, retornou como um novo tipo de jogo, irreconhecível para alguns e fruto de nova aculturação para outros, como no caso das cartas portuguesas que se transformaram em vários jogos típicos japoneses.

Mas se os novos jogos passaram a ser ‘moda’ em várias regiões, havia que se fabricar os instrumentos para a prática. As ‘novas’ técnicas de impressão com matrizes de madeira e, posteriormente, usando metais, criaram uma nova classe de artesãos especialistas nesse objeto de consumo. Um dos mais antigos registros sobre fabricação de baralhos é fruto de pesquisas recentes: sabe-se de certo Rodrigo de Borges, que produzia baralhos na cidade de Perpignan (cidade de influência catalã, hoje em território francês) em cerca de 1380. A partir de 1400 várias referências falam de fabricantes em Bolonha (1427), Limoges (1428), Veneza e Avignon (1441), Strasburg (1448), e em vários outros locais.


Novas técnicas de impressão criam nova classe de artesões especializados em cartas.

Muitos desses fabricantes modificavam os desenhos que viam de baralhos trazidos de outras regiões, atendendo a costumes e gostos locais e pessoais. Criou-se assim, rapidamente, uma grande variedade de desenhos e padrões ‘regionais’ de baralhos, que se adaptavam aos costumes e as variações das regras de jogos que chegavam a cada região. Essa variedade de desenhos e jogos atingiu seu apogeu no final do século 19 onde quase uma centena de diferentes tipos de baralhos associados às várias regiões europeias era conhecida.

A criatividade de fabricantes e artesãos gerou novos desenhos das figuras, mas também dos símbolos que representavam os naipes utilizados. Dos originais, usados pelas cartas mamelucas – moedas, cálices, espadas e tacos de polo – modificações foram sendo introduzidas. O mais antigo sistema de naipes, o italiano, se mantém muito próximo das cartas mamelucas, sendo, certamente, uma cópia direta daqueles. Com exceção dos ‘tacos de polo’, desconhecidos pelos europeus (mas usados em um esporte muito praticado pelos árabes), todos os outros desenhos foram utilizados. Substituíram-se os tacos por bastões, genéricos. Também Espanha e Portugal acompanham os naipes italianos e o original mameluco, criando um conjunto hoje designado, genericamente, como ‘sistema latino’ de naipes.

Talvez o sistema suíço de naipes tenha sido o primeiro objeto de modificação criativa. Uma radical mudança foi feita. Ao invés das copas (cálices), espadas, bastões e moedas (ouros), temos escudos, flores, frutos do carvalho (bolotas) e guizos. Há registros de baralhos usando esse sistema em c.1450. A Alemanha vem em seguida (c.1460), provavelmente usando os suíços como referência, mas mudando escudos por corações e flores por folhas. 


A Alemanha utiliza naipes suíços como referência.

Finalmente, são os fabricantes franceses, talvez mais práticos e com desejo de maiores produções, os simplificadores dos símbolos dos naipes de seus baralhos, criando quatro figuras simples, monocromáticas e de fácil reprodução, que para a maioria das pessoas identifica de forma inequívoca os naipes dos baralhos. Há registros de que isso tenha ocorrido em torno de 1480. 


Franceses simplificam os modelos de cartas e criam figuras de fácil reprodução.

A crescente união das regiões europeias nos países que se formaram no final do século 19, início do século 20 foi restringindo as variedades de padrões regionais em uma quantidade menor. Mas distinguimos hoje vários modelos específicos de baralhos ainda de uso popular em áreas específicas. O padrão veneziano (um dos mais antigos conhecidos) e o de Bolonha, além de vários outros, ainda são populares na Itália atual. Munique e Berlim têm seus desenhos específicos, diferindo entre si e de baralhos de outras regiões. Embora restrito a uma pequena região, os suíços de Zurique e seu arredores ainda praticam o jogo de Jass, de origem holandesa, mas jogado com um baralho típico, com desenhos, estrutura e sistema de naipes exclusivos. Na França, um padrão ‘nacional’, criado no século 19 é reconhecido como peculiar daquele país.

Mas foi a cidade de Rouen, no norte da França, que nos legou o baralho de desenho e uso mais popular atualmente. [veja link ‘O baralho internacional’]

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