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18.09.2020

O baralho no Brasil

Saiba como começou o baralho no Brasil

Por José Luiz Giorgi Pagliari e Cláudio Décourt

Tempos coloniais: marinheiros jogavam cartas nos intervalos tranquilos das longas viagens cruzando o Atlântico. Habitantes de nossa terra traziam seus maços de cartas de Portugal e precisavam poupar esse frágil instrumento de jogo, sensível ao calor e umidade de nosso país e às animadas seções a que eram sujeitos.

Isso foi por dois séculos. Longe dos olhos da Coroa, e favorecidas pela escassez desse material, surgiram tentativas de sua impressão no Recife e Rio de Janeiro no século 18, devidamente confiscadas pelas autoridades por ferir o monopólio da Coroa portuguesa.

Em 1769 criou-se a Real Fábrica de Cartas de Jogar em Lisboa, anexa à Impressão Régia, com o privilégio do fabrico e venda por todo o Reino e colônias. Foram estabelecidos então o preço de 100 réis para o baralho de cartas em Portugal, e 150 réis para o Brasil e demais domínios de além-mar.

Enquanto  no Reino a Real Fábrica sustentava alta lucratividade, no Brasil as autoridades de norte a sul eram alertadas às falsificações. O jogo do Voltarete estava então em voga.


Novos ventos


A vinda de D. João VI e sua corte ao Brasil em 1808 trouxe alento à atividade econômica, com a abertura de portos e criação da Impressão Régia no Rio de Janeiro. Três anos depois, foi a ela anexada a Real Fábrica de Cartas de Jogar, que passou a ter o monopólio do fabrico e venda de baralhos. Em 1818 foi entregue em arrendamento a Jaime Mendes de Vasconcelos & Cia. O contrato acabou sendo rescindido por falta de pagamento em 1823, encerrando a seguir o monopólio do Estado.

Nos anos que se seguem começam a ser ofertados baralhos importados da Europa, num primeiro momento da França e Alemanha, e depois da Bélgica. Como capital do Império e centro econômico do país, o Rio de Janeiro atrai imigrantes, entre eles técnicos gravadores, que vão dar mais qualidade ao que aqui se produzia.

O século 19 encerra com o aparecimento de dois fabricantes de cigarros no Recife, que aproveitam seu setor gráfico para produzir cartas para jogo: Moreira & C., e Azevedo e C., respectivamente com a “Fabrica Caxias” e a “Fabrica Lafayette”, ambas fundadas em 1884. Em São Paulo, V. Steidel & C. produzia cartas litografadas.

Uma questão de nomes


Havia no Brasil um predomínio das cartas com sistema de naipes latino até a segunda metade do século 19. Os nomes que designavam os 4 grupos eram coerentes com seu desenho: ouros eram as moedas, copas eram as taças, espadas eram essas armas e paus eram bastões. Com a maior influência francesa e do norte alemão, via Portugal ou diretamente no Brasil, disseminam-se baralhos de naipe francês, mantendo-se a mesma denominação para os símbolos, que agora já não fazem muito sentido: ouros para diamantes, copas para corações, espadas para folhas e paus para trevos.


O início da COPAG


Baralhos de empresas como Wüst e Dondorf, ambas de Frankfurt, são exportados para o Brasil na virada do século. É precisamente o terceiro padrão de Wüst que Albino Dias Gonçalves escolheu para começar o novo negócio, Albino Gonçalves e C.,  em 1908 em São Paulo, importando cartas dessa empresa alemã. Dez anos depois a empresa muda seu nome para Companhia Paulista de Papéis e Artes Gráficas (“C.P.P.A.G.”).


Era época em que o pôquer começava a se popularizar. Em 1923 aparece a marca símbolo da empresa, o “139”.  O desenho era o do “Trophy Whist #39”, da norte-americana United States Playing Card Company (USPCC), em sua segunda versão, com os índices grandes. O joker (curinga) desse baralho inspirou a famosa taça/troféu que se tornou o ícone da COPAG.

Em 1930, com a aquisição de máquinas offset, a empresa começou a imprimir as cartas. O fechamento dos cassinos e a proibição dos jogos de azar em 1946 não impediram o crescimento da empresa. Afinal, a sociedade pré-eletrônica tinha nas cartas sua maior diversão. Os jogos de bridge e buraco ganhavam muitos adeptos.

Internacionalização


As instalações são transferidas para a zona livre de Manaus em 1987, constituindo a Copag da Amazônia. No final do século 20 adquire a Soimca, Sociedade Impressora Caxiense, que tinha boa distribuição no sul do país com seu baralho espanhol e, principalmente, com o “Pinguim”. A aceitação dos baralhos plásticos COPAG pelos cassinos das Américas atraiu a belga Carta Mundi, um dos maiores fabricantes de baralhos do mundo, que adquiriu 50% de seu capital em 2005.

Hoje a COPAG é o único produtor de baralhos de qualidade no país.

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