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18.09.2020

O baralho internacional

Voltando de batalhas durante a chamada ‘Guerra dos 100 anos’ (1337 – 1453), soldados ingleses traziam do continente vários objeto

Por José Luiz Giorgi Pagliari e Cláudio Décourt


Voltando de batalhas durante a chamada ‘Guerra dos 100 anos’ (1337 – 1453), soldados ingleses traziam do continente vários objetos. Mercadores franceses e flamengos tinham na sua bagagem comercial para a Inglaterra, vinhos, missais, livros de rezas e outras mercadorias populares da época. Nestes conjuntos também havia os baralhos, novidades ‘da moda’ na Europa continental, ainda pouco conhecidos nas ilhas britânicas. Muitos dos comerciantes franceses eram da cidade de Rouen, importante centro exportador de produtos franceses e de outros países europeus, situado no norte da França.

Desta forma, o baralho regional de Rouen tornou-se o padrão usado na Inglaterra. Logo, surgiram artesãos, especialmente em Londres, interessados em produzir baralhos no país, seguindo o novo modelo. A abertura do mercado levou alguns fabricantes franceses a se estabelecerem em Londres, como Blanchard, já importante fabricante francês. Do século 14 ao 18, o já característico ‘padrão inglês’ teve uso restrito à Inglaterra. No século 18, seguiu com os ‘pilgrims’ para as colônias inglesas no Novo Mundo.

Também no século 18, surge na Inglaterra o jogo de whist, seguindo a estrutura original dos jogos de vazas. Logo, o whist se transforma em jogo popular, passando a ser praticado em outros países europeus e no oriente, especialmente na Índia, então importante colônia britânica. Nos Estados Unidos, por sua vez, a prática do pôquer torna-se popular como jogo de apostas. De várias regiões americanas espalha-se por todo o território americano e dali para outras regiões do mundo.


Todos esses jogos usavam como ‘padrão’ de baralho, o ‘inglês’. E, gradual, mas rapidamente, o desenho corre o mundo, acompanhando a ‘paixão’ pelo whist e pelo pôquer. Sucessor do whist, o bridge passa a ter a fama de jogo importante no início do século 20. E o padrão inglês, cada vez mais, passa a ser conhecido e reconhecido como padrão de baralho. Logo, o desenho originalmente criado por um obscuro fabricante de Rouen, transforma-se no ‘padrão internacional’, usado por muitos jogadores e fabricado em todo o mundo. Quando alguém, atualmente, se refere a um baralho, quase certamente está visualizando um baralho no ‘padrão internacional’. As marcas 157, Copag 139, nas versões normais e Experience, Poker Stars, Texas Hold’Em e outras marcas de qualidade, são exemplos fabricados há muitos anos pela Copag.


Inovações de desenho, mas não muitas...


Um dos aspetos mais interessantes e marcantes deste padrão é a manuten­ção, por mais de cinco séculos, das características principais dos desenhos das figuras. Talvez seja esta a concepção gráfica mais duradoura e copiada do mundo.

Composto por 52 cartas usa o sistema de naipe francês. Compõe-se de três figuras (Rei, Dama e Valete), e de 10 cartas numerais para cada naipe.

Embora cada um dos vários fabricantes que produziram e produzem baralhos no padrão internacional te­nham criado e modificado estilos, muitas vezes corrompendo o significado original de certo detalhe, são mantidos vários pontos básicos em quase todas as versões produzi­das. Note-se, entretanto, que em baralhos modernos é muitas vezes difícil associar detalhes das figuras a objetos conhecidos. Com o passar do tempo desenhos que re­presentavam itens concretos, como armas e ornamentos de vestimentas, foram sendo transformados em formas abstratas estilizadas, comumente com aparência pouco simi­lar ao original.

Segue ilustração mostrando etapas significativas da evolução do desenho do baralho internacional, desde sua origem em Rouen.

Até meados do século 19 a identificação de uma carta dependia de sua total visualização. Nesta época dois grandes avanços de desenho gráfico foram introduzidos. Primeiro as cartas passaram a ser duplas, permitindo conhecê-las independentemente do lado em que são seguras. A segunda inovação foi a introdução dos valores e dos naipes nos cantos das cartas (denominados índices), o que permite a sua identificação sem sua exposição plena. 


Uma carta típica do padrão internacional é o curinga. É usado em alguns jogos como uma carta extra, comumente substituindo quaisquer das outras cartas do baralho. O curinga é uma invenção americana de c.1865. Foi criado para o jogo de euchre, introduzido por imigrantes alemães nos Estados Unidos em meados do século 19 e que se tornou muito popular naquele país e na Austrália, rivalizando-se com o whist e com o poker. 

Atualmente é praticado no sul e no oeste da Inglaterra, especialmente na Cornuália. Neste jogo o valete do naipe de trunfo é chamado de Bower direito, o outro valete da mesma cor do trunfo de Bower esquerdo e introduz-se uma carta extra ou Best Bower, que deu origem ao curinga moderno. Bower, em alemão, significa pequeno fazendeiro, e é também usado para designar o valete dos baralhos. A evolução desta palavra para joker (curinga, em inglês) deveu-se a uma corrupção do nome do jogo, designado em alemão como Jucker ou Juckerspiel. Samuel Hart, importante fabricante americano de baralhos no século 19, introduziu o Best Bower como carta extra em seus baralhos para euchre em c.1865. A utilização de bufões (bobos da corte) em curingas verifica-se a partir do final do século 19 – início 20. 


Outra peculiaridade do baralho internacional são os ases de espadas. Praticamente todos os fabricantes apresentam esta carta com um grande naipe central, distinguindo este ás dos demais. A origem desta carta peculiar vem da Inglaterra no século 18: para identificar o pagamento de impostos sobre baralhos produzidos, cada fabricante era obrigado a ‘comprar’ os ases de espadas de um impressor indicado pelo governo, que incluía um desenho ‘oficial’, com o naipe central estilizado e em grandes dimensões, com numerações e outros detalhes que identificavam o pagamento dos impostos. Essa operação de ‘compra’ caracterizava o pagamento do tributo sobre a fabricação do baralho.


Assim, os fabricantes produziam todas as cartas para seus baralhos exceto o ás de espadas. Isso era possível à época, tendo em conta a uniformidade dos cartões usados e a ausência de decoração no dorso das cartas. Mesmo depois de abolidos como identificação fiscal, mantiveram-se os vistosos ases de espadas com desenhos especiais, tradição usada até hoje pela maioria dos fabricantes. Na época em que serviu a objetivos de controle oficial, a falsificação do ás de espadas era punida com pena capital. Há registro de um fabricante condenado à forca, em 1805. Esta sinistra pena deve ter sugerido a identificação do ás de espadas como a carta da morte, superstição ainda latente entre certos povos, principalmente no oriente. 

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