Baralhos Usados no Brasil

A documentação dos primeiros anos da Real Fábrica de Lisboa indica a existência das cartas “portuguezas, castelhanas e francezas”, que deviam ser as utilizadas também no Brasil.

O maço dos dragões

As cartas ditas “portuguezas” eram de naipes latinos, com o diferencial de trazerem dragões nos ases, uma figura humana no 2 de paus, com reis, cavaleiros e damas serviçais (conhecidas como sotas) como figuras. Um certo Luis Schlichting, do Rio de Janeiro, tinha seu nome em cartas desse tipo, podendo terem sido feitas por ele em torno de 1830, ou por ele importadas.

Moreira & Cia do Recife imprimiam uma versão até a entrada do século 20.

Cartas Dragão Cartas Dragão Cartas Dragão Cartas Dragão
Ás de copas, dois de paus, dama de ouros e cavaleiro de espadas.

Exemplos de cartas do tipo espanhol

Entre o pouco material que restou da Real Fábrica do Rio de Janeiro está uma folha xilogravada de cartas conhecidas como “castelhanas”, provavelmente derivado do padrão Nacional Espanhol. Faz parte do acervo da Biblioteca Nacional.

Cartas do Modelo Espanhol
Cartas de naipe espanhol impressas pela Real Fábrica.

A vizinhança do Brasil com outros países de língua hispânica e a imigração européia para o sul do país no final do século 19 criaram na região o hábito de uso do baralho de padrão Catalão Espanhol, que era fabricado nos anos 1940 pela Lafayette do Recife.

Desde essa época, a Copag tem sua versão inspirada nesse padrão. Já nos anos 1960, o “Tipo Espanhol” da SOIMCA era bastante popular. A artista Gertre elaborou um novo desenho em 1993 para a empresa, mas não teve boa aceitação por parte dos jogadores tradicionais.

Provavelmente é da Fábrica Caxias do Recife o “Elephante No.50”, com padrão Cadiz, que circulava nos anos 1930.

  • Cartas de Baralho

    Rei de paus de padrão catalão.

  • Cartas de Baralho

    Desenho de Gertre mesclando padrão castelhano e catalão.

  • Cartas de Baralho

    Padrão Cadiz.

Os baralhos de naipes franceses

Outra peça antiga da Biblioteca Nacional é uma folha da Real Fábrica do Rio de Janeiro com cartas do padrão de Paris xilografadas; apesar de não ter ainda as pintas dos naipes impressas ali, elas seguem o sistema de naipe francês. São as chamadas “cartas francezas”, não necessariamente feitas naquele país.

Cartas do Modelo Francês
Cartas do padrão de Paris da Real Fábrica, ainda sem os naipes impressos.

Do comércio com a Alemanha, notadamente via Hamburgo, vieram cartas utilizadas no norte alemão. Um produtor notável foi C. L. Wüst de Frankfurt, que editou alguns baralhos com vistas do Brasil nos ases.

Seu terceiro padrão de figuras foi escolhido para as primeiras edições de Albino Gonçalves & C., como é o caso do Infantil. A Companhia Paulista de Papéis e Artes Graphicas (Copag) continuou a utilizar esse desenho com algumas variações, no início com as marcas “13” e “215”.

Outro fabricante de Frankfurt atraiu a atenção dos nossos editores, a B. Dondorf. Seu “Mittelalter” foi adotado pela Azevedo & C., enquanto que as figuras do “No.178” a Lafayette utilizou para uma edição publicitária.

  • Cartas de Baralho

    "Infantil", de Albino Gonçalves & C.

  • Cartas de Baralho

    Dama de copas de Azevedo & C.

  • Cartas de Baralho

    Baralho de paciência publicitário da Fabrica Lafayette.

O baralho internacional

Entre os primeiros baralhos vendidos pela Companhia Paulista de Papéis e Artes Graphicas estava o “113”. O desenho era o do “Trophy Whist #39”, em sua segunda versão com os índices grandes, da norte-americana United States Playing Card Company (USPCC). Em 1923, com novo dorso, foi lançado o “139”, marca fortemente associada ao nome da empresa até hoje.

A Copag desenvolveu outro desenho alternativo, mas acabou destinando-o para as cartas de paciência “Mirim”. Azevedo, Prograf, Lumicart, A. Queiroz, entre outros fizeram também suas versões do internacional.

Cartas de Baralho
Baralho de paciência da COPAG.
Souvenir Centenário
Cartas paulistas do "Souvenir do Centenário".

Baralhos de Fantasia

Provavelmente impresso pela USPCC, o “Souvenir do Centenário da Independência do Brasil”, editado no Rio de Janeiro por Francisco Carneiro, é um dos primeiros maços de cartas que foge dos padrões até então conhecidos. Como um baralho ilustrado, ele traz em cada carta uma fotografia do Rio de Janeiro de 1922, salvo duas das cartas que retratam São Paulo, com o Teatro Municipal e a Estação da Luz.

No “Baralho Brasileiro” da Prograf, dos anos 1960, as figuras são de diferentes períodos, com trajes regionais. Na década seguinte, Lenita Perroy ilustrou com suas fotos de modelos as figuras numa edição limitada de 100 baralhos. Oriode Rossi editou em 1988 um conjunto de cartas com figuras medievais desenhadas por Percy Vargas.

  • Baralhos Fantasia

    Curinga do "Baralho Brasileiro".

  • Baralhos Fantasia

    Carta da fotógrafa Lenita Perroy.

  • Baralhos Fantasia

    Carta de fantasia editado por Oriode Rossi.

  • Baralhos Fantasia

    4 (Terra) de ar do Discóbolo.

  • Baralhos Fantasia

    New Classic, Fashion e Young de Malu Guerra Simões.

  • Baralhos Fantasia

    New Classic, Fashion e Young de Malu Guerra Simões.

  • Baralhos Fantasia

    New Classic, Fashion e Young de Malu Guerra Simões.

  • Baralhos Fantasia

    D.João VI por Clécio Penedo.

  • Baralhos Fantasia

    Baralho do Palmeiras da COPAG.

  • Baralhos Fantasia

    Dama de espadas modificada do "Chiclete com Banana".

  • Baralhos Fantasia

    100 anos de COPAG.

  • Baralhos Fantasia

    Variação do internacional de Leonor Décourt.

O curioso “Discóbulo” é um baralho redondo de 1990, editado por Armando Conceição da Serra Negra, onde os quatro elementos são os naipes, enquanto que os planetas e o sol ilustram as cartas, desenhadas por Sequetin. Do mesmo ano são as edições em plástico da Avant Card, criadas por Malu Guerra Simões: “New Classic”, “Fashion” e “Young”.

Dez anos depois foi a vez de Clécio Penedo ilustrar um baralho do Museu Imperial de Petrópolis com personalidades da História do Brasil.

A Copag tem lançado diversos desenhos fora de padrão, como a série de times de futebol nos anos 2000, onde figuras baseadas no baralho internacional vestem camisas das agremiações esportivas; ou o “Chiclete com Banana” de 2012, onde as tradicionais figuras do “139” são transformadas, remetendo ao conjunto musical.

Para comemorar 100 anos da família no ramo, a Copag lançou em 2008 um estojo comemorativo com cartas desenhadas por Simone Mattar em edição limitada. O best-seller mundial foi o EPOC, criado por Leonor Décourt em 2004, uma releitura artística do baralho internacional.

Enfeites Naipes

Outras bases para as cartas

Alguns artistas utilizaram outras plataformas para ilustrar suas cartas. Um belo exemplo são as 53 cartas ilustradas por Martha Pawlowna Sachidrowitz no livro “Dama de Espadas” de Pushkin, publicado pelo círculo bibliófilo "Cattleya Alba". Impresso em 1944, originalmente em seda, foi reeditado no ano seguinte em papel. Também em livro (“Brazil in Tarot Cards / O Brasil em Cartas de Tarô”) podem ser encontradas reproduções dos 22 óleos que Israel Pedrosa fez representando personalidades brasileiras nos trunfos do tarô.

Nos anos 1970 o artista gráfico Ziraldo criou para uma série de caixas de fósforo da Fiat Lux doze figuras de baralho bem humoradas, cada metade interagindo com a outra.

Em 1999, a Telefônica de São Paulo fez uma série de 54 cartões telefônicos com as mesmas figuras repetidas nos naipes.

  • Cartas de Baralho

    Uma das 54 cartas ilustradas no livro "Dama de Espadas".

  • Cartas de Baralho

    Drummond é "O Prestidigitador" no tarô de Israel Pedrosa.

  • Cartas de Baralho

    Caixa de fósforo com carta de baralho.

  • Cartas de Baralho

    Carta de baralho na forma de cartão telefônico.

Artistas plásticos como Sônia Menna Barreto e Alex Cerveny têm obras relacionadas com o baralho. Alguns alunos de curso universitário criaram peças interessantes como trabalho final de graduação. É o caso de Juliana Kuperman com “Baralhos”, para a FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (2004), e Pedro Biz Eschiletti com “Desenho de um baralho de cartas espanhol ilustrando a cultura do Rio Grande do Sul”, para o Curso de Design UniRitter (2007).

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